Você ainda menstrua, mas o ciclo já não obedece ao calendário. Em alguns meses, o fluxo chega antes; em outros, demora. O sangramento pode ficar mais intenso, o sono mais leve e a irritabilidade mais presente.

Quando essas mudanças aparecem depois dos 40 anos, muitas mulheres pensam imediatamente na falta de estrogênio. Entretanto, outro hormônio também participa dessa transição: a progesterona.

Durante a perimenopausa, a ovulação pode se tornar menos frequente e mais imprevisível. Como a progesterona é produzida principalmente após a ovulação, seus níveis também podem oscilar. Isso ajuda a explicar parte das mudanças menstruais, mas não significa que todo sintoma seja causado exclusivamente pela “falta de progesterona”.

Qual é a função da progesterona?

Durante a vida reprodutiva, a progesterona participa da preparação do endométrio — camada interna do útero — para uma possível gestação. Quando a gravidez não acontece, a queda hormonal contribui para o início da menstruação.

Ela também interage com diferentes sistemas do organismo, mas sua função mais importante na terapia hormonal da menopausa é proteger o endométrio dos efeitos do estrogênio.

Quando uma mulher que ainda possui útero utiliza estrogênio sistêmico sem proteção adequada, o endométrio pode ser estimulado excessivamente. Isso aumenta o risco de hiperplasia e câncer endometrial. A associação de um progestagênio reduz esse risco.

O que acontece com a progesterona na perimenopausa?

Na perimenopausa, os ovários não deixam de funcionar de uma hora para outra. O processo costuma ser irregular: alguns ciclos ainda apresentam ovulação, enquanto outros podem ocorrer sem que um óvulo seja liberado.

Com isso, a produção de progesterona pode variar consideravelmente entre um mês e outro. Podem aparecer:

• Ciclos mais curtos ou prolongados;

• Menstruações imprevisíveis;

• Fluxo mais intenso ou prolongado;

• Pequenos sangramentos entre os ciclos;

• Sensibilidade mamária;

• Alterações de humor;

• Piora do sono;

• Sintomas semelhantes aos da tensão pré-menstrual.

Esses sinais não confirmam, isoladamente, uma deficiência hormonal. Miomas, pólipos, alterações da tireoide, anemia, medicamentos e outras condições também podem modificar o ciclo ou provocar sintomas semelhantes.

Um exame isolado consegue avaliar a progesterona?

Nem sempre.

O resultado depende do momento do ciclo em que o sangue foi coletado e de a mulher ter ovulado ou não naquele mês. Durante a perimenopausa, essa imprevisibilidade torna a interpretação ainda mais delicada.

Solicitar um grande painel hormonal sem uma pergunta clínica definida pode gerar confusão. A avaliação precisa considerar o padrão menstrual, os sintomas, o uso de medicamentos, os antecedentes ginecológicos e outras possíveis causas.

Mais importante do que encontrar um número “ideal” é compreender o que está acontecendo com aquela mulher.

Progesterona melhora o sono?

Algumas mulheres relatam sonolência após o uso de progesterona micronizada oral. Isso pode estar relacionado a metabólitos que interagem com receptores cerebrais envolvidos em relaxamento e sono.

Contudo, isso não significa que a progesterona seja um medicamento universal para insônia. As evidências ainda são inconsistentes sobre o benefício da progesterona isolada para sono, fogachos, humor e outros sintomas da menopausa.

Antes de atribuir a insônia aos hormônios, também é importante avaliar:

• Fogachos e suores noturnos;

• Ansiedade e estresse;

• Apneia do sono;

• Síndrome das pernas inquietas;

• Consumo de álcool ou estimulantes;

• Alterações da tireoide;

• Medicamentos;

• Rotina e higiene do sono.

A progesterona pode fazer parte de uma estratégia em determinadas situações, mas não substitui uma investigação adequada.

Progesterona e progestagênio são a mesma coisa?

“Progestagênio” é o nome utilizado para substâncias que produzem efeitos semelhantes aos da progesterona no organismo. Esse grupo inclui:

• Progesterona micronizada;

• Progestinas sintéticas;

• Sistemas intrauterinos que liberam levonorgestrel;

• Associações presentes em alguns tratamentos hormonais.

Essas opções não são idênticas. Podem diferir em via de administração, efeitos adversos, padrão de sangramento e impacto metabólico.

A escolha não deve ser feita apenas porque determinado produto é descrito como “natural”, “bioidêntico” ou “mais moderno”. O tratamento precisa possuir dose adequada, absorção previsível, segurança e capacidade comprovada de proteger o endométrio quando essa proteção for necessária.

Cremes manipulados protegem o útero?

Não se deve presumir que um creme de progesterona manipulado ofereça proteção endometrial adequada.

A absorção pela pele pode ser variável, e as evidências não demonstram benefício consistente dos cremes de progesterona para os principais sintomas da menopausa. Formulações com absorção insuficiente não devem ser tratadas como equivalentes à progesterona oral ou a outros esquemas estudados.

Em terapias que utilizam estrogênio sistêmico, empregar uma proteção endometrial inadequada pode expor a paciente a riscos evitáveis.

Progesterona natural é isenta de riscos?

Não. “Natural” não significa automaticamente seguro para todas as mulheres.

Dependendo da formulação, podem ocorrer:

• Sonolência;

• Tontura;

• Sensibilidade mamária;

• Alterações de humor;

• Inchaço;

• Dor de cabeça;

• Sangramento vaginal irregular.

Além disso, ainda não existem evidências suficientes para afirmar que esquemas com progesterona micronizada eliminem o aumento de risco mamário observado em tratamentos hormonais combinados. Diretrizes atuais consideram insuficientes as evidências para concluir que o risco de câncer de mama seja diferente entre progesterona micronizada, didrogesterona e outros progestagênios.

Os riscos precisam ser explicados de maneira proporcional, sem alarmismo e sem falsas garantias.

Toda mulher que usa progesterona irá menstruar?

Não necessariamente.

O padrão de sangramento depende da idade, da fase da transição menopausal e do esquema escolhido:

• Em esquemas sequenciais, o progestagênio é utilizado em determinados dias do mês e pode ocorrer sangramento ao final do ciclo;

• Em esquemas contínuos, estrogênio e progestagênio são utilizados diariamente, buscando-se progressivamente a ausência de sangramento;

• Em mulheres na perimenopausa, a atividade ovariana própria pode continuar interferindo no padrão menstrual.

Sangramentos inesperados são relativamente comuns nos primeiros meses de uma terapia hormonal sistêmica ou após mudanças na dose. Porém, sangramento persistente, intenso, recorrente ou que surge depois de um período de estabilidade precisa ser avaliado.

Progesterona ajuda a emagrecer?

A progesterona não é um medicamento para emagrecimento.

Oscilações hormonais podem coexistir com alterações de sono, apetite, disposição e composição corporal, mas o tratamento do excesso de peso exige uma avaliação mais ampla.

Prescrever progesterona com promessa de reduzir gordura, “acelerar o metabolismo” ou corrigir isoladamente o peso não corresponde a uma abordagem médica responsável.

Quando a progesterona pode fazer parte do tratamento?

Ela pode ser considerada, entre outras situações:

• Para proteção endometrial durante terapia com estrogênio sistêmico em mulheres com útero;

• Em determinados esquemas para controle do ciclo ou sangramento;

• Como parte de uma terapia hormonal individualizada;

• Em situações ginecológicas específicas, conforme avaliação médica.

A dose e a forma de uso dependem do objetivo. Uma quantidade suficiente para determinado sintoma pode não ser suficiente para proteger o endométrio, o que reforça a importância do planejamento e do acompanhamento.

O tratamento deve começar pela história da paciente

Não existe uma fórmula hormonal adequada para todas as mulheres depois dos 40 anos.

Antes de prescrever, é importante compreender:

• Como o ciclo menstrual mudou;

• Quando os sintomas começaram;

• Como estão sono, humor e disposição;

• Se existe sangramento anormal;

• Quais medicamentos são utilizados;

• Se o útero está presente;

• Quais são os antecedentes mamários e ginecológicos;

• Quais benefícios a paciente espera alcançar;

• Quais riscos precisam ser considerados.

O Dr. Igor Alves realiza atendimento médico voltado à saúde hormonal, metabólica e à composição corporal, com avaliação individualizada e escuta atenta às necessidades de cada paciente.

Se seu ciclo mudou, o sono piorou ou você percebe que seu corpo está se comportando de maneira diferente depois dos 40 anos, uma avaliação médica pode ajudar a identificar o que está acontecendo e quais possibilidades realmente fazem sentido para você.

Fontes consultadas: European Society of Endocrinology, NICE, American College of Obstetricians and Gynecologists e The Menopause Society.